JOSÉ PAULO PAES OU A LÍRICA DESGARRADA * ANTONIO CABRAL FILHO – RJ

Dez poemas desgarrados

Livro de poesia de Jose Paulo Paes

DE ONTEM PARA HOJE, José Paulo Paes, Boitempo Editora 1996. Ilustracoes de Enio Squeff, dedicado a sua esposa. Está escrito” Para Dora retrospectivamente “. A Apresentação é sucintíssima: ” Á semelhança dos quinze coligidos em A meu esmo ( Florianópolis, Noa Noa, 1995), estes dez outros poemas desgarrados foram escritos em diferentes épocas. Deixei de incluí-los nas coletâneas que então publiquei porque destoavam do espírito delas. Ficaram, díspares e enjeitados, nas antologias ou periódicos que um dia os acolheram. Quatro jaziam ainda em estado de incompletude numa pasta de guardados. Dali os resgatei para completar, os inéditos, ou aperfeiçoar, os éditos, a fim de poder atender em tempo  hábil ao convite de Ivana Jinkings, da Boitempo.

O título com que ora  aparecem serve para lembrar-lhes a idade – alguns remontam aos anos 40 – e o recondicionamento a que foram submetidos com vistas a torná-los mais palatáveis ao gosto atual, tanto do autor quanto do leitor, se algum houver.

Esperançosamente,

JPP “.

É imensa a tentação em reproduzir todos os poemas; que são só dez, dada a liricidade tão envolvente. Eu fico perdido, mas obedeço ao instinto:

BAILE NA ALDEIA

Bandindo seu diploma

de normalista

Judith lhe aponta para o timbre

de vulvas veludosas

e seios em pé.

(Dentro dele fora dele

um mar de literatura

dentro dele fora dele

apenas literatura

– sou um estribilho)

E Judith

noite afora

com a dança interminável.

Às golfadas, a cidade

escorre de sua boca

em leites de cabra

missas dominicais

cinemas e quermesses.

Enquanto isso

a clarineta constrói mil soluções

no ar poligonal.

*

ÍTACA

Na gaiola do amor

não cabem asas de condor.

Penélopes? Cefaléias!

Quanta saudade, odisseias…

*

GONZAGUIANA

Em tronco de velho freixo

exposto à lixa dos ventos

ao vitríolo do tempo

não gravo teu nome não:

gravo-o no meu coração.

*

O AMOR EXEMPLAR

“on doit ses oeuvres conseiler”

VILLON, Le Lais

1 – Ode

Mulher, à tua procura

sem temorme dividi

entre horizontes selvagens.

Esqueci muitas palavras

vaguei em bosque noturno

perdi-me em espelho fundo.

Como nada mais quisesse

atirei minha riqueza

aos ventos obstinados.

Mas em troca recebi

cabedais de mais valor

que os levados pela vento:

este gosto de silêncio

estas mãos decifradoras

esta ternura sem pressa.

Num horizonte selvagem,

te encontro, mulher, um dia.

Já não sou o que seria.

2 – Fábula

O mundo lhe pesa sobre os

ombros curvos, mas ele insiste em

partilhar todo naco de pão. A cada

esquina, seus passos oscilam entre o

salto e a queda.

Na mão direita leva uma pulseira

com guizos de jogral. Na esquerda

uma tocha cuja luz atrai

indiferentemente albatrozes e

morcegos.

Quando soar o último clarim,

seus olhos abrirão as cortinas do tédio

para esvoaçar, triunfantes, entre as

colunas da manhã.

3 – Epitalâmio

É hora de surdos

tambores pulsando

no sangue mais espesso.

É hora de roupas

vibráteis sobre luas

de alcovas plenilúnias.

É hora de líquido

plic – deslizando

– plac – sobre a pele.

É hora de bocas

em ofego, óleos

concêntricos, braços

crucifixos,

feras em assomo

para além da jaula.

É hora de refluxo;

confluem vaga e lava,

janelas amanhecem.

4 – Cantiga

Sobolos rios

um dia me achei

vago fantasma

de mendigo e rei.

Sobolos rios

pus o meu anel

meu manto furado

meu sol de papel.

Sobolos rios

parado esperei

algo de passagem

algo que não sei

Ah curso erradio

desses rios sem lei.

5 – Lais

Que as traças devorem

este papiro, resto

de inútil ciência.

Que a mudez apague

amanhã o equívoco

do não-dito ontem.

Que a chuva dissolva

o rastro dos meus passos

no chão.

Que só fique o eco

do teu nome no ar:

canção.

6 – Escudo

Um campo em blau com águia

desdobrada

e entre dedos de mão aberta em riste 

a primeira luz da madrugada.

*

SÍSIFO

hoje agora me decido

depois amanhã hesito

o dia detém meu passo

a noite cala meu grito

deuses onde? ccéu existe?

céu existe? deuses onde?

um eco que faz perguntas

um espelho que responde

e eu sísifo tardo-triste

a tilintar correntes

de dilemas renitentes

lá me vou sem vez nem voz

rolar a pedra dos mudos

pela montanha dos sós

*

DA FILISTEIDA

1 – Competências

Nosso reino

é deste mundo, o vosso, de outro

que não este.

Nosso deus

fala claro: dar a César.

Vosso deus tem parábolas tão vagas…

Convenhamos: camelos

passaram sempre

por buracos de agulha.

2 – Consenso

E o amor, esse belo

mas incauto animal?

No quintal.

E a justiça, donzela

de balança e espada?

Vendada.

E a honra, severo

ornamento da sala?

Na vala.

E a hipocrisia, máscara

para todo gosto?

No rosto.

Que rosto? O teu

o meu o nosso –

filisteus.

*

HISTÓRIA ANTIGA

Estava o rei

atrás do cristal.

Vem o tempo

lhe fazer mal.

O tempo no homem:

Fora da prisão.

O homem no povo:

Senhor Capitão.

O povo no fogo:

O fogo sua lei.

O mal pelo bem

O bem pelo mal.

Que pálido o rei!

Que frágil o cristal!

*

ANTEMANHÃ NA VILA

“O sol da Vila é triste

Noel Rosa “

Um violão murmura coisas vagas.

No copo de cerveja agora um gosto

salobro de fastio e fim de noite.

Na distância do morro ainda soam

tamborins em surdina. O vento rasga

a folha de jornal que há pouco lia.

Ao voltar para casa sem amigos

os seus pés vão pisando distraídos

hemoptises de sol pelas calçadas.

É a hora fatal da madrugada.

A luz baça do dia que desponta

apaga o vulto do último sambista.

*

SONETO AO SONETO

(SOBRE MOTE)

“Perdeste em Leoni o decadente enredo

deu-te Pessoa estrelas imprevistas

DOMINGOS CARVALHO DA SILVA”

Perdeste em Leoni o decadente enrendo

e essa perda afinal te enriqueceu:

Deixaste de ser grato ao filisteu

que te queria digestivo e ledo.

Fez-te Augusto dos Anjos atro e azedo

resmungo de defunto. Míope Orfeu,

Bandeira te tossiu e converteu-te

em tísico e lírico segredo.

Sosígenes te deu pavões dementes,

Cassiano ardor trocadilhesco e dentes

para mascar amêndoas concretistas.

Pôs-te Vinícius mijos dissolventes.

Mas isso no intramar; no ultra,

entrementes,

deu-te Pessoa estrelas imprevistas.

*

NATUREZA MORTA

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Ótimo! Cumpri a ordem do instinto. Transcrevi o livro todo. Não dá para obedecer os arranjos gráficos que ELE e a Editora aplicaram aos poemas, até pra fazer o livro ficar mais atraente.Mas a solução está aqui: fazer José Paulo Paes lido também por meus amigos. É só isso que eu queria.

*&*

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